Especialistas afirmam que a preparação para o mercado é a maneira mais eficaz de evitar a exploração de crianças e adolescentes pelo crime: ‘Por que o menino de periferia não pode ser chefe de cozinha?’
Peões em um jogo que movimenta milhões de reais no Brasil, crianças e adolescentes são aliciados para o tráfico de drogas cada vez mais cedo no país. Uma pesquisa feita pelo Observatório de Favelas, organização localizada no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, mostrou que 13% das pessoas inseridas na comercialização de drogas ilícitas tinham entre 10 e 12 anos no ano de 2018, número duas vezes maior do que o registrado em 2017. Dados disponibilizados pela Fundação Casa de São Paulo apontam que atualmente há 5.269 jovens entre 12 e 20 anos cumprindo medida socioeducativa no local (aqueles que têm 18 anos ou mais estão cumprindo penas aplicadas quando ainda eram menores de idade). Desses, 2.670 foram apreendidos por tráfico de drogas, o equivalente a mais da metade das detenções. Uma série de fatores tornam os mais jovens vulneráveis ao crime e à exploração infantil com o trabalho no tráfico. Para especialistas em segurança pública, os caminhos para combater essa violência dobrada são muitos e vão da profissionalização dos jovens até a descriminalização das drogas.
“Verificamos que o crime de tráfico — no qual a pessoa recebe a droga, transita com a droga, vende a droga nos pontos de tráfico, transporta a droga de um lugar para o outro — tem por trás, normalmente, adultos, que são os grandes traficantes, aquelas pessoas que comercializam a droga e passam para essas crianças realizarem a prática dessa ilicitude. Eles fazem isso porque são pessoas mais vulneráveis, são pessoas que, segundo esse mercado, não respondem pela prática de um crime por serem menores de 18 anos, por serem inimputáveis. Então, em razão disso, por receberem medidas socioeducativas, infelizmente são muito utilizados por facções criminosas ou por outros criminosos maiores de idade para praticarem o ato da consumação tanto do roubo quanto do tráfico” - explica o secretário de Justiça de São Paulo e advogado criminalista Fernando José da Costa.
No baile realizado nesse sábado (23), representantes de um dos pontos de droga mais presentes no Vale do Ipiranga anunciaram as vendas por meio da deep web, área da Internet que fica "escondida" e tem pouca regulamentação, e com isso facilitou a chegada de compradores durante a festa.
"Hoje o baile vai ser patrocinado pela tropa do chefe, a biqueira estará na atividade e não vai faltar o open de lança, de lei!
O baile vai ser monitorado, muita postura é o mínimo que exigimos! Mandado vai engatar a ré na bala.
Saiba chegar e saiba sair, muita fé!
O pó de cinco foi abastecido, brota na loja noia!" - dizia o anúncio.
Além disso, o professor de gestão pública da FGV e associado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Rafael Alcadipani, falou um pouco mais sobre o desenvolvimento do tráfico:
"O que a gente percebe é um país que não cria educação, não dá oportunidade de educação para as pessoas e depois prende e mata. São [moradores de] lugares muito carentes, locais em que falta tudo, falta Estado… E os criminosos, muitas vezes, se transformam em modelo para essas pessoas. Além disso, é uma forma de dinheiro fácil, se você for pensar. É uma oportunidade de ganhar dinheiro.
O tráfico de drogas entre os jovens vai permanecer sendo um grande problema aos jovens, principalmente os periféricos, que seguirão nesse caminho ilusório de poderes com a ambição de querer ser relevante ao seu meio - pouco se importando para as consequências. Diante dessa pauta, a questão que fica aos próximos governantes é: Como entregará oportunidades sociais, econômicas e acadêmicas a partir dessas dores?
Matéria - LISBOA, Guilherme Duarte•25/10/2021

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